Esaú e Jacó : uma revisão crítica centenária

Eliane Fernanda Cunha Ferreira (UNIGRAN-MS)

RESUMO: Breve revisão crítica dos cem anos da publicação de Esaú e Jacó, de Machado de Assis, com vistas a demonstrar a recepção do romance por estudiosos machadianos.  

ABSTRACT: A brief critical review about the publications regarding Esau and Jacob from Machado de Assis, aiming at demonstrating the novel reception by machadianos researchers.  

PALAVRAS-CHAVE: Esaú e Jacó; crítica; Machado de Assis  

KEY WORDS: Esau and Jacob; criticism; Machado de Assis

Em 1904, por ocasião da publicação do romance Esaú e Jacó, Mário de Alencar, filho de José de Alencar, em resenha, escreveu:

De um livro de Machado de Assis não se deve dizer apenas que é bom, porque fora ser supérfluo; nem dizer que é banal ou ruim, para se não negar a luz do sol. Que hei de afirmar então deste último livro, Esaú e Jacó? Direi que é melhor do que Dom Casmurro, como este é melhor do que Quincas Borba, e Quincas Borba é melhor do que Brás Cubas. Acrescentando que Brás Cubas é admirável e ótimo, terei dito de certo modo, incompletamente e por circunlóquio, a impressão que tive de Esaú e Jacó (1995, p. 45).

Embora Mário de Alencar fosse um intelectual muito respeitado e um admirador da obra machadiana, os ecos de sua apresentação do romance foram fracos à época e até à atualidade, pois a crítica literária pouco menciona esse romance. Diferentemente das inúmeras comemorações que ocorreram em 1999, não apenas na ABL, com o centenário de publicação do romance Dom Casmurro, bem tardiamente, a Academia disponibiliza no site do "Espaço Machado de Assis" uma página sobre os cem anos da publicação de Esaú e Jacó , na qual consta um artigo de Antônio Carlos Secchin, intitulado "No centenário de Esaú e Jacó: Machado de seus duplos", seguido de uma relação das edições publicadas desde 1904 a 1999, das traduções do romance, de estudos e artigos em periódicos e de apenas três teses universitárias. É interessante observar que à época da publicação de Esaú e Jacó, o romance mereceu mais críticas do que Dom Casmurro, tendo uma repercussão consagradora. Conforme comenta Ubiratan Machado (2003, p. 259), “nenhum livro de Machado, até então, foi recebido com tantos elogios.” As sete críticas que forma publicados em jornais estão transcritas na íntegra no livro Machado de Assis : roteiro de consagração (crítica em vida do autor), de 2003. Ressalte-se que no mesmo ano de 1904 foi publicada uma segunda edição do romance.

A Academia Brasileira de Letras, guardiã do manuscrito do romance, digitalizou-o para preservar o documento. Assim sendo, o pesquisador que almejar trabalhar com o manuscrito em papel, provavelmente não terá acesso, a não ser que a ABL autorize. No site http://www.machadodeassis.org.br, o pesquisador tem à sua disposição um banco de dados produzido pela Academia Brasileira de Letras, onde se encontra grande parte da fortuna crítica da obra de Machado, sendo praticamente impossível acompanhar e obter todo o material que vem sendo editado em formato impresso ou eletrônico.

O escritor Peregrino Júnior foi um dos poucos privilegiados que tocaram o papel em que Machado inscreveu sua vida literária. Em 1938, ao publicar seu livro sobre a doença que atormentava Machado, a epilepsia, ilustra-o com duas páginas dos fac-símiles dos manuscritos de cada um dos romances para demonstrar como que por meio da grafologia podia-se perceber os reflexos da doença na letra de Machado de Assis. Confrontando os dois manuscritos, o de Esaú e Jacó e o de Memorial de Aires, últimos romances de Machado, Peregrino Júnior assim os analisa:

Cotejando-os, fácil foi verificar as diferenças que marcaram a letra do romancista nesses dois momentos de sua vida espiritual. No Esaú e Jacó, posto escrevendo com uma letrinha certa e miúda, em largas folhas de papel pautado, Machado ainda emendava um pouco, apesar de serem relativamente limpos, correntios e corretos os seus originais. No seu último romance, porém, qualidades e defeitos se acentuam: a letra torna-se ainda mais miúda (micrografia); mais raras são as correções e os enganos; a escrita é fluente e límpida, não revelando nenhuma dificuldade, nenhuma tortura, nenhuma preocupação aparente de forma (PEREGRINO JÚNIOR, 1976, p. 117).

O estudo de Peregrino Júnior sobre os manuscritos poderia ser considerado uma primeira tentativa de crítica genética da obra de Machado referente às revelações grafológicas e psicológicas neles contidas. Já é tempo, no entanto, de se fazer uma edição crítica e genética desse romance machadiano, a exemplo do primoroso trabalho realizado por Ana Cláudia Suriani da Silva sobre o conto “Linha reta e linha curva” (2003). A pesquisadora percorre o processo de produção do escritor a partir da gênese no manuscrito da comédia, As forças caudinas , provavelmente escrita entre 1863 e 1865.

Pode-se afirmar que Machado tinha como procedimento de escritura a reescrita de seus próprios textos ou das traduções que fazia, haja vista a escrita do conto citado, que é uma versão narrativa daquela comédia, assim como procedeu anteriormente, em 1861, quando, a partir da tradução do ensaio satírico de Victor Hénaux – Des l´amour des femmes pour les sots
(
Queda que as mulheres têm para os tolo), escreveu a fantasia dramática Desencantos e, anos mais tarde, o seu primeiro romance – Ressurreição (1872). Sem dúvida, a reescrita foi uma constante na produção de sua obra, bem como acontece em Quincas Borba e Memórias póstumas de Brás Cubas e também em Esaú e Jacó, que já antecipa a escrita de seu último romance, o Memorial de Aires. “Escrever, pois, é sempre reescrever”, afirma Antoine Compagnon (1996 p. 31). Nesse sentido, aqueles que analisam Esaú e Jacó e/ou o Memorial de Aires não deixam de mencionar ou comparar a escrita/reescrita dos dois romances. É o caso da estudiosa machadiana, Márcia Lígia Guidin, que em seu livro Armário de vidro: velhice em Machado de Assis (2000), que é sobre o Memorial de Aires, inicia-o com o capítulo intitulado “De Esaú e Jacó ao Memorial de Aires ”, assim demonstrado:

É desta obra [Esaú e Jacó] que será ostensivamente retomado o personagem-narrador, o mesmo conselheiro Aires, a quem o autor agora delega a palavra em primeira pessoa. É inspirada nela a nova concepção formal da obra seguinte: antes uma narrativa a partir de um diário, agora, um diário. É dela que vem o próprio título, que lá já existia: “Memorial”. Mais rigorosamente ainda, poderíamos dizer que o Memorial de Aires é concebido e nasce dos meandros ambíguos do prefácio a “advertência”, [...] de Esaú e Jacó, prefácio este que, aliás, valeria potencialmente como matriz verossímil de quaisquer obras que dele adviessem (GUIDIN, 2000, p. 27-28).

Dos romances escritos por Machado, Esaú e Jacó é o menos analisado pelos estudiosos machadianos, se comparado aos estudos sobre Dom Casmurro seguido das Memórias póstumas de Brás Cubas, que lideram, há anos, as preferências de críticos literários, jornalistas, editores, teatrólogos, cinegrafistas e professores-pesquisadores, além das listas de vestibulares, nos livros didáticos, nas monografias, dissertações e teses. Em uma breve navegação no sítio organizado por Ana Maria Koch sobre a fortuna crítica do escritor,1 utilizando a busca pela palavra-chave “Esaú e Jacó”, das mil cento e dezoito entradas de títulos de trabalhos publicados sobre a obra machadiana, apenas dezesseis abordam o penúltimo romance de Machado, sendo dez textos publicados em periódicos acadêmicos nacionais e internacionais; uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado; um livro; dois artigos de jornais e uma introdução escrita para a publicação do romance pela editora Cultrix. No entanto, existem outros livros que analisam o romance sem necessariamente estar no título como é o caso de Machado de Assis: the Brazilian master and his novels , de Helen Caldwell (1970); Machado de Assis : história e ficção, de John Gledson (1986); Análise estrutural de romances brasileiros , de Affonso Romano de Sant´Anna (1990); Nonada: letras em revista (1999), que traz um artigo de Homero Vizeu Araújo intitulado: “Esaú e Jacó: os irmãos quase siameses e Flora” e Machado de Assis: novas seletas (2002), com organização, apresentação e notas de Luiz Antonio Aguiar. O objetivo de Aguiar é incentivar os adolescentes a lerem a obra Machadiana. Com uma linguagem bem acessível a esse público, o Mestre em Literatura Brasileira pela PUC-RIO, expressa sua paixão pela obra de Machado em seu livro Machado e Juca, novela também juvenil “em que Machado de Assis é personagem e protagonista de um thriller ambientado no Rio de Janeiro, no ano de 1899.” (2002, p. 183). Esse tipo de abordagem para introduzir a leitura da obra de Machado busca desfazer o estigma de que a linguagem machadiana é inacessível seja para adolescentes ou para alunos de cursos de Letras.

Em um outro tipo de análise, escrita para um outro tipo de público, em especial para os estudiosos machadianos, John Gledson, no livro citado, retoma textos pouco analisados da produção literária de Machado, como Casa Velha, considerado erroneamente, segundo o crítico, como sendo conto, mas que é um romance, que foi publicado entre as Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba; as crônicas de Bons Dias!; Quincas Borba ; Memorial de Aires e Esaú e Jacó, o qual nos interessa aqui mais de perto. Sobre esse penúltimo romance, Gledson o analisa na perspectiva política, seguindo o enfoque sociológico e histórico feito por Roberto Schwarz da obra machadiana, cuja abordagem é criticada por Araújo (1999, p. 106), por Gledson não privilegiar os procedimentos do narrador.

Curiosamente, Esaú e Jacó foi o primeiro romance machadiano a ser traduzido para o idioma espanhol, em 1905, em Buenos Aires, pela editora La Nation, sem o nome do tradutor, sendo a única obra que, em vida, o escritor viu transpor a fronteira, quase sempre intransponível da língua portuguesa para a América Espanhola. Seu romance Dom Casmurro poderia ter sido traduzido para o alemão logo após sua publicação, mas o editor Garnier, proprietário dos direitos autorais da obra machadiana, comprada pela quantia de oito contos, não aceitou negociar o valor de 100 francos por volume estipulado por ele com o editor alemão. Garnier dominava o mercado editorial de literatura brasileira na virada do século XIX para o XX. “Sua política de compra definitiva de direitos autorais beneficiou a empresa mas prejudicou os escritores”2, como foi o caso de Machado. Dom Casmurro só seria traduzido para o alemão cinqüenta e dois anos depois, em 1951.3 Garnier incentivava as traduções da literatura brasileira para o francês e o espanhol.

Embora Esaú e Jacó tenha sido o primeiro romance de Machado traduzido para o idioma espanhol, apenas na década de 1960, portanto depois de sessenta anos da primeira tradução em espanhol, que a obra será traduzida pela estudiosa norte-americana, Helen Caldwell, para o idioma inglês, que além de ter analisado a obra do escritor brasileiro, também foi uma das poucas tradutoras em língua inglesa. Caldwell, sem dúvida, foi uma importante disseminadora da obra de Machado nos Estados Unidos e em países de língua inglesa. Ela analisou os nove romances de Machado, mas seu ensaio sobre Dom Casmurro, The Brazilian Othello of Machado de Assis (1960), apenas traduzido para o português em 2002, foi o mais retomado por estudiosos machadianos brasileiros e estrangeiros.

Caldwell traduziu Dom Casmurro, em 1953, O alienista, juntamente com William Grossman, em 1963, Esaú e Jacó , em 1966 e o Memorial de Aires em 1972.

Sobre Esaú e Jacó, Caldwell escreveu em seu Machado de Assis: the Brazilian master and his novels (1970):

Embora o objetivo patriótico em Esaú e Jacó se aproxime mais do ideal positivista de que uma obra de arte deveria servir diretamente o Estado do que qualquer outro romance de Assis,  seu método de narrativa é o mais afastado de todos do ideal naturalista.  Ayres, como vimos,  baseia-se em seus personagens para criar a ação ao invés de ser criado por ela à maneira naturalista.  E, ao invés de nada deixar ao encargo da imaginação, ele delega  ao seu leitor a tarefa de preencher muito dos detalhes por si mesmo, e de compreender o significado, se puder (CALDWELL, 1970, p. 159) 4

A análise de Caldwell não foge ao didatismo presente também na análise estruturalista de Affonso Romano de Sant´Anna. Porém, foram e continuam a ser análises válidas para introduzir o futuro(a) professor(a) de Literatura Brasileira nas escolas secundárias na medida em que dissecam e até mesmo esvaziam, em certa medida, a narrativa machadiana numa tentativa de encontrar uma forma para se ler Machado. Entretanto, nessa “comemoração” dos cem anos da publicação do romance, que passa praticamente desapercebida, vamos, com satisfação, verificar que outras novas abordagens têm surgido, extrapolando as letras, já que no dossiê ora apresentado na revista transdisciplinar da UNIGRAN-MS, a INTERLetras , consta um artigo escrito pela psicanalista e doutora em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas, Daisy Wajnberg, que numa análise sobre as referências bíblicas no romance, aponta para a estratégia de construção textual de Machado ao se valer do arquivo literário que é as Sagradas Escrituras. Em dois outros ensaios, a teatralidade é destacada, demonstrando assim o quanto Machado sempre foi um apaixonado pela arte teatral, embora não tenha sido considerado pela crítica machadiana tradicional como um bom teatrólogo.

Nessa breve revisão centenária da publicação de Esaú e Jacó, pode-se verificar uma mudança de paradigma na crítica na medida em que outras áreas do conhecimento, denotando a presença da inter e da transdisciplinaridade, além do surgimento de “jovens” pesquisadores machadianos, têm se interessado pela obra ainda por se descobrir de Machado de Assis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, Luiz Antonio (Org.) Machado de Assis . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002 (Novas seletas).

ALENCAR, Mário de. Esaú e Jacó, por Machado de Assis. In: ____. Alguns escritos . Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1995. p. 45-51.

ARAÚJO, Homero Vizeu. Esaú e Jacó: os irmãos quase siameses e Flora. In: NONADA – Letras em revista. Porto Alegre: Faculdade Ritter dos Reis. Ano 2, n. 2, jan/jul 1999. p. 91-105.

GLEDSON, John. Esaú e Jacó. In: ____. Machado de Assis : história e ficção. Tradução de Sônia Coutinho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986 (Coleção Literatura e Teoria Literária, v. 56), cap. 4, p. 161-214.

GUIDIN, Márcia Lígia. De Esaú e Jacó ao Memorial de Aires. In: ____. Armário de vidro: velhice em Machado de Assis. São Paulo: Nova Alexandria, 2000. cap. 1, p. 23-50.

MACHADO, Ubiratan (Org.). Machado de Assis: roteiro de consagração (crítica em vida do autor). Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003.

SANT´ANNA, Affonso Romano de. Esaú e Jacó. In: ____ . Análise estrutural de romances brasileiros .

SURIANI DA SILVA, Ana Cláudia. Linha reta e linha curva: edição crítica e genética de um conto de Machado de Assis. Campinas, SP: EdUnicamp, 2003.

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1Consultar: http://www.geocities.yahoo.com.br/machadodeassis_fortunacritica
2Ver Momentos do livro no Brasil , 1996, p. 19.
3As informações sobre as publicações das traduções da obra de Machado de Assis baseiam-se no levantamento feito pelo Dr. Plínio Doyle até 1987 e na publicação da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro sobre os escritores brasileiros traduzidos no estrangeiro até 1994. Após essa data, as informações foram coletadas pela autora.
4No original: Although the patriotic aim in Esau and Jacob comes closer to the Positivist ideal that a work of art should directly serve the state than any other of Assis´s novels, its narrative method is the furthest removed from the Naturalistic. Ayres, as we have seen, relies on his characters to create the action, instead of being created by it in the Naturalistic manner. And, instead of leaving nothing to the imagination, he calls on his reader to fill in many of the details by himself, and to fathom the meaning if he can (CALDWELL, 1970: 159)